O ADOLESCENTE, O TÉDIO E O MERCADO DE TRABALHO.

  • Compartilhe:

A adolescência é um grande marco na história de cada um de nós. Um período de dualidades, contrastes e polaridades. Biologicamente na adolescência estamos prontos para nos sustentar, mas socialmente, ainda não somos completamente “autorizados” a isso, há uma espécie de duplo impedimento, não estamos mais autorizados a ser crianças e ainda não temos a possibilidade de ser adultos. Contudo, adolescência é uma fase grande de aprendizado e é justamente nessa etapa que o indivíduo começa a fazer escolhas maiores e assim, gerar aprendizados, experiências que direcionarão sua vida adulta. Desta forma, é preciso que aja possibilidades de escolhas e assim, novos e poderosos aprendizados e experiências.

O adolescente tem o direito de errar e acertar e é justamente nessa polaridade que o cérebro se reorganiza como um grande bloco de mármore que toma forma nas mãos do artesão, a adolescência é um verdadeiro marco da vida. Mas quando ela acontece?

Facilmente identificamos o início da adolescência, pois coincide com o início da puberdade, onde as alterações no corpo são bem visíveis. Mas o final dessa etapa não está bem definido. Alguns especialistas médicos, psicólogos e nutricionistas, afirmam que essa etapa pode ser concluída bem tardiamente, a depender de diversos fatores, como o nível psicossociocultural, independência econômica e até fatores nutricionais. As meninas em sua maioria, se adiantam em cerca de um ano na puberdade, ou seja, pode começar aos 10 ou 11 anos, alguns casos bem precoces, podem perceber os primeiros sinais aos 9 anos, noutros casos, podem atrasar até aos 17 anos. Entre os meninos, o habitual é que inicie entre os 12 e os 13 anos, embora também isso possa variar e ocorrer entre os 9 e até os 15 anos, eles também padecem por influências de diversos fatores.

Atualmente a compressão de adolescência não está somente ligado a maturidade sexual, mas a maturidade emocional, desenvolvimento hormonal e atividade do cérebro. Desta forma, as novas abordagens psicológicas destacam três fases da adolescência: A primeira dos 12 aos 14 anos (início), a segunda dos 15 aos 17 anos (meio) e a terceira, dos 18 aos 25 anos (final). A Neurociência afirma que o desenvolvimento não para em uma determinada idade e há evidência de evolução do cérebro além dos vinte e poucos anos.

Você já pensou sobre os motivos que levam os jovens adolescentes a sentirem tanto tédio? A se trancarem no quarto? Se apaixonam insanamente e amarem situações de pura adrenalina? O que ocorre é uma verdadeira estratégia cerebral, toda a circuitaria cerebral se movimenta, não ocorre apenas uma mudança hormonal, acontece uma reorganização fisiológica e cognitiva do cérebro. Essa estratégia é uma forma que o cérebro encontrou para preparar o indivíduo enchendo-o de novas experiências e aprendizados. Imagine esse turbilhão acontecendo também com o adolescente no mercado de trabalho...

Mercado de trabalho? Sim, a entrada do adolescente no mercado de trabalho é defendida por uma alteração realizada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no ano 2000, que afirma que crianças e adolescentes de até 14 anos são proibidos de trabalhar, contudo, entre 14 e 16 anos o trabalho é permitido na condição de aprendiz. Segundo estatísticas recentes do IBGE, cerca de 92 milhões de pessoas entre 14 e 21 anos exercem alguma atividade remunerada.

Mas, e o comportamento do adolescente no mercado de trabalho? É preciso que aja muita sensibilidade e perspicácia por parte do empregador, não basta apenas ter um jovem aprendiz para realizar tarefas rotineiras, a empresa que contrata um jovem para o Programa Aprendiz deve aceitar a importante missão de contribuir no desenvolvimento profissional, cultural e até emocional, todavia, o jovem também tem muito a contribuir através do seu ímpeto, curiosidade e até por sua insatisfação com a mesmice.

Como vimos, o tédio faz parte dos seus dias, o adolescente sempre está em busca de novidades e a grande questão é que muitas empresas não pensam em investir nesses talentos que repentinamente podem sair da corporação e assim, mantém esses jovens apenas na realização de atividades superficiais, rotineiras e quase sempre, sem propósito, algumas empresas só cumprem a exigência legal. E assim, com muita frequência perdem possíveis talentos para o tédio ou para empresas mais empolgantes e assim, aumentam o seu turnover.

Hoje a Neurociência comprova que o adolescente tem um rebaixamento de um terço dos seus receptores para dopamina (substância propulsora da motivação) do início até o final da adolescência, isto é, falta-lhes a vontade e aumenta-lhes o tédio. Por isso, é preciso empolgar o jovem aprendiz, conceder-lhes tarefas criativas e diferentes e no meio disso tudo, os gestores precisam saber que são ótimos consultores, pois já aprenderam a enxergar as consequências possíveis dos próprios atos, coisa que o adolescente cerebralmente ainda não é capaz plenamente, pois o córtex orbito frontal (região cerebral relacionada a modulação da responsabilidade e consequências dos atos) somente amadurece no final da adolescência, permitindo depois desse período um comportamento responsável mas comprometido, que leva em consideração as consequências possíveis dos próprios atos antes de cometê-los.

Gestor tenha paciência! O ajuste aos novos prazeres e a aquisição de controle sobre os impulsos aos poucos vai acontecer, e assim, a impaciência da infância vai dando lugar à habilidade de se esperar pelo que se quer. Contribua então na promoção de um clima organizacional saudável, pois estudos comprovam que quanto mais agradável é o ambiente, maior engajamento acontece, inclusive por parte dos adolescentes. E ainda, forneça feedback individual, frequente e de modo singular, utilize situações ou comportamentos para elucidar a compreensão sobre os aspectos positivos e dos pontos a serem desenvolvidos, e por último, realize com frequência o job rotation (prática de rodízio de trabalho em que o funcionário atua em diferentes funções por um período determinado.) para evitar o tédio e possibilitar o desenvolvimento das competências do jovem aprendiz.

Mães, pais, professores, políticos e gestores, contribuam para o crescimento do “jovem aprendiz”, não importa onde ele esteja, seja na escola, na empresa ou em casa, pois no amanhã que logo chega, será ele a gestar e construir a nossa nação. Faça o seu melhor hoje e sempre. Siga em frente e seja no mínimo, muito feliz. Forte abraço!